Escutatória – Rubem Alves

Postado em 26 maio 2010 por admin – 2 Comentários

Rubem_AlvesSempre  vejo anunciados cursos  de oratória. Nunca  vi anunciado curso de  escutatória. Todo mundo  quer aprender a falar…  Ninguém quer aprender  a ouvir. Pensei em  oferecer um curso de  escutatória, mas acho  que ninguém vai se  matricular. Escutar é  complicado e sutil. 
Diz  Alberto Caeiro que…  não é bastante não  ser cego para ver  as árvores e as  flores. É preciso também  não ter filosofia nenhuma.  Filosofia é um monte  de idéias, dentro da  cabeça, sobre como  são as coisas. Para  se ver, é preciso  que a cabeça esteja  vazia. Parafraseio o  Alberto Caeiro: Não  é bastante ter ouvidos  para ouvir o que  é dito. É preciso  também que haja silêncio  dentro da alma. Daí  a dificuldade… 
A  gente não aguenta ouvir  o que o outro diz  sem logo dar um  palpite melhor… Sem  misturar o que ele  diz com aquilo que  a gente tem a dizer.  Como se aquilo que  ele diz não fosse  digno de descansada  consideração….. 
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor… 
Nossa  incapacidade de ouvir  é a manifestação  mais constante e sutil  de nossa arrogância  e vaidade. No fundo,  somos os mais bonitos…
Tenho  um velho amigo, Jovelino,  que se mudou para  os Estados Unidos estimulado  pela revolução de  64. Contou-me de sua  experiência com os  índios: Reunidos os  participantes, ninguém fala.  Há um longo, longo  silêncio. Vejam a semelhança…
Os  pianistas, por exemplo,  antes de iniciar o  concerto, diante do  piano, ficam assentados  em silêncio… Abrindo  vazios de silêncio…  Expulsando todas as  idéias estranhas. Todos  em silêncio, à espera  do pensamento essencial.  Aí, de repente, alguém  fala. Curto. Todos ouvem.  Terminada a fala, novo  silêncio. Falar logo  em seguida seria um  grande desrespeito, pois  o outro falou os  seus pensamentos….. Pensamentos  que ele julgava essenciais.  São-me estranhos. É  preciso tempo para entender  o que o outro falou.  
Se  eu falar logo a  seguir… São duas  as possibilidades. 
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado. 
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O  longo silêncio quer  dizer: Estou ponderando  cuidadosamente tudo aquilo  que você falou. E,  assim vai a reunião.  Não basta o silêncio  de fora. É preciso  silêncio dentro. Ausência  de pensamentos. E aí,  quando se faz o  silêncio dentro, a  gente começa a ouvir  coisas que não ouvia.  
Eu  comecei a ouvir. Fernando  Pessoa conhecia a experiência…  E, se referia a  algo que se ouve  nos interstícios das  palavras… No lugar  onde não há palavras.  
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. 
No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia… Que de tão linda nos faz chorar… 
Para  mim, 
Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. 
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.    (Rubem Alves)

Música da Semana

Postado em 24 maio 2010 por admin – Comentar

Torcuato Mariano Torcuato Mariano

Everything I Couldn’t Say With Words  Clique e Ouça.

Santo Antônio do Aventureiro – MG

Postado em 21 maio 2010 por admin – Comentários desativados

Essa pequena e pacata cidade fica bem perto de Além Paraíba. Tenho um grande amigo que mora lá. Um dia resolvi visitar a cidade para bater umas fotos. A vida passa devagar nesse lugar. Um cachorro até dorme no meio da rua sem ser incomodado. Nesse dia eu entrei  na igreja que estava passando por reformas. O moradores se uniram para esse trabalho. Eles me disseram que encontraram uma escada que estava oculta pela reforma anterior. Eles ficaram entusiamados com a descoberta. O lugar é bem bucólico e muito fotográfico. Curtam as fotos e um grande abraço.

Eduardo Rocha

Clique para Zoon

Abuse! Que mal tem isso?

Postado em 17 maio 2010 por admin – 3 Comentários

noname

‘Não coma a vida com garfo e faca. Lambuze-se!
Muita gente guarda a vida para o futuro.
Mesmo que a vida esteja na geladeira,
se você não a viver, ela se deteriorará.
É por isso que tantas pessoas se sentem emboloradas na meia-idade.
Elas guardam a vida, não se entregam ao amor,
ao trabalho, não ousam, não vão em frente.
Não deixe sua vida ficar muito séria, saboreie tudo o que conseguir:
as derrotas e as vitórias, a força do amanhecer e a poesia do anoitecer.
Com o tempo, você vai percebendo
que para ser feliz você precisa aprender a gostar de si,
a cuidar de si e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas…
é cuidar do Jardim para que elas venham até você.’

                                                         Mário Quintana

Música da Semana

Postado em 16 maio 2010 por admin – Comentar

Russ Freeman 2Russ Freeman

Guitarland  Clique e Ouça.

Itacoatiara – Niterói / RJ

Postado em 11 maio 2010 por admin – Comentários desativados

Estou postando para vocês a primeira parte de uma seleção de fotos sobre esse lugar fantástico. A geografia de Itacoatiara é muito especial e a cada dia eu descubro mais detalhes para fotografar. Espero que vocês gostem.

Um abraço!

Clique  para Zoon.

Música da Semana

Postado em 9 maio 2010 por admin – Comentar

rickie_lee_jones 2 Rickie Lee Jones

Second Chance   Clique e Ouça.

As Fachadas de Trancoso – Bahia

Postado em 1 maio 2010 por admin – Comentários desativados

As  fotografias não retratam a verdadeira beleza desse lugar.  Um abraço!

Eduardo Rocha

Clique para zoon

Música da Semana

Postado em 1 maio 2010 por admin – Comentar

sade3 SADE

Is It a Crime   Clique e Ouça.

Fazer 30 anos

Postado em 29 abril 2010 por admin – 1 Comentário

Afonso RomannoAffonso Romano de Sant’Anna

QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.

Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.

Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.

Música da Semana

Postado em 25 abril 2010 por admin – Comentar

Laura Fygi Laura Fygi

Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars)  Clique e Ouça

Ontem eu fui ao Maracanã.

Postado em 22 abril 2010 por admin – 1 Comentário

Vocês não vão acreditar, mas nessa última quarta-feira, eu fui ao Maracanã. Os meus filhos me chamaram e eu topei. Foi uma experiência incrível. Ter ido junto com eles já foi o máximo. Chegando lá, fomos a um bar um pouco distante do estádio, pois não é permitido a venda de bebidas alcoólicas no seu entorno . Tomamos umas cervejas e pude ver o aquecimento das torcidas. É um barato. A cantoria e os gritos de guerra vão surgindo.
Fomos para o estádio. No caminho, reparei uma grande quantidade de policiais. Todos os torcedores são revistados na rampa de acesso às bilheterias.
O ambiente é seguro. Não há porque ter medo de ir lá.
Quando se avista o campo, a sensação é muito legal. Os torcedores vão chegando e as torcidas vão se posicionando com seus instrumentos e suas grandes bandeiras. De repente, numa cabine superior do estádio, aparece o ídolo maior do Flamengo. Zico dá adeus aos seus súditos e a galera vai ao delírio.
O barulho vai aumentando e atinge o auge quando o time do coração entra em campo. Realmente é ume espetáculo impar.
Todos esperam a vitória e um jogo cheio de passes precisos e jogadas incríveis.
Não foi bem isso que aconteceu. O Flamengo conseguiu vencer o fraco time do Caracas e foi vaiado no final. A torcida não desiste o tempo todo. Isso me deixou impressionado.
Parece uma grande irmandade. O jogo termina e a torcida começa a se retirar do estádio e ir para casa fazendo seus comentários sobre a peleja. Todos são técnicos de futebol.
É muito legal ouvir esses comentários.
Adorei essa experiência, principalmente por ter ido com meus filhos.
Tirei algumas fotos, mas não tenho muita experiência de campo.
Espero que vocês gostem.
Um abraço.     22/04/2010

O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO

Postado em 22 abril 2010 por admin – 2 Comentários

DSC00711Texto de José Antônio Oliveira de Resende.
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

 

 

 

“Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando- nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… Casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas.

– e dizia:

– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… Tudo sobre mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.

Pra quê televisão? Pra quê rua? Pra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. Era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa… A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… Até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas.. Pra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite…

Que saudade do compadre e da comadre!”

Música da Semana

Postado em 18 abril 2010 por admin – Comentar

Silje NergaardSilje Nergaard

How Am I Supposed to See the Stars  Clique e Ouça.