Cinema

Alguns filmes da década que acabou
Carlos Moura

Década que acabou?  Nem tanto, mas os britânicos a antecipam, eles que adoram listas de tudo, dos vinhos ao cuspe à distância.
Com a ajuda da memória – que já anda meio capenga – e ao poderoso Google de Nazaré, listei alguns filmes dos últimos dez anos que julgo indispensáveis.
 Fi-lo (!) para exercitar a memória, mas penso que as indicações sejam úteis para aqueles que acreditam que cinema vai muito além de Avatar ou de Se eu fosse você.
Devo ter esquecido alguns. Ainda que quase todos os grandes cineastas tenham desaparecido ou aposentado antes do novo milênio, o cinema muderno manteve alguns encantos, capaz de soltar rebentos temporões. Como os abaixo citados.
Alguns que não vi poderiam estar na lista, segundo a opinião de alguns amigos e de críticos em quem confio,  gente mais sábia do que eu: Luz Silenciosa (de Carlos Reygadas), A fita branca (de Michael Haneke),  A agenda (Laurent Cantet), Ninguém pode saber (Hirozaku Koreeda) e Em busca da vida (Jia Zhang-Ke). A conferir.

 

OS FILMES

 Dogville                                            

 DOGVILLE (2003)
Um marco definitivo, inovador. Quem não o viu em cinema perdeu muito de sua força, o dvd o acanha. Levei meia hora para me acostumar com sua estranheza, depois me entreguei. Parece teatro, mas não é. Nicole Kidman come o cão que o diabo amansou, num lugar que não tem nome de cachorro à-toa. Lars Von Trier construiu uma cidade sem paredes, só com marcas no chão de um palco cinza, a escuridão como limite. Tem alguma coisa de Brecht, de expressionismo alemão, mas é cinema de uma ponta a outra. Entre os coadjuvantes está Lauren Bacall, tão distante quanto possível da mocinha do rosto de ouro de Humphrey Bogart.  Von Trier fez uma sequela – Manderlay – que tem o mesmo formato, mas alguns neurônios se perderam. Dogville é um assombro.

  Saraband                                                                                                                                          SARABAND – (2002)
Ingmar Bergman sobreviveu e entrou no milênio coma mesma delicadeza, a mesma crueldade. Do jeito dele. Retoma Cenas de um casamento como um refluxo e recupera Liv Ulmann, ainda vendendo carisma, com as rugas e as rusgas de seu personagem que agora envelheceu. Erland Josephensson também.  As dimensões conturbadas estão de ponta a ponta, tinindo. Os acertos de conta bergmanianos permanecem.  Filme de dvd (porque feito para a tv sueca, como vários outros dele), tem um making of maravilhoso, Bergman brincando e sarabandeando como um menino. Passou em alguns cinemas da Europa. Obra prima, despedida à la carte.

  

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EDIFÍCIO MASTER (2002) e O FIM E O PRINCÍPIO (2005)
Em contextos e locais diferentes, Eduardo Coutinho assumiu a condição de melhor documentarista vivo do mundo. Sua percepção ao lidar com gente – com o olhar, com os gestos, com um saber ouvir de profundas implicações humanas – transformou estas duas obras em instantâneos de exposições da alma , no inesperado das reações de seus entrevistados. Edifício radiografa um prédio de pequenos apartamentos em Copacabana, no Rio, onde a esperança e a solidão circulam livres pelos corredores e escadas. O fim e o princípio viaja ao sertão da Paraíba e captura os muitos sentidos da vida através da fala de caboclos e caboclas, feito versos de João Cabral. O diretor não esconde sua perplexidade ao ser questionado, por um matuto de olhos espertos, sobre o sentido da vida. Coutinho deixa abertas as janelas de seu agnosticismo para mostrar que as dúvidas e as ansiedades são iguais no mundo inteiro, sejam as do intelectual do Rio de Janeiro ou as do velho analfabeto que filosofa nos cariri. Já que as dúvidas predominam, ele prolonga os planos depois de cada fala, num tributo ao mistério do silêncio.

 

                                                                                                                                               22medos-privados-em-lugares-publicos06MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (Coeurs) (2006)
O oitentão Alain Resnais parece estar começando hoje. Seu filme tem dezoito anos na forma e oitenta e um no conteúdo. O entrelaçamento de personagens, quase à maneira do estilo que começou com Robert Altman e se alastrou por alguns cineastas independentes, tem uma Paris estranhamente nevada e cinza (e quase oculta) como cenário. Há humor e dor em doses caprichadas e seus atores fetiches estão lá, a caráter – Sabine Azema, André Dussollier e Pierre Arditi. Eclético e parceiro de grandes escritores nos roteiros de seus filmes, Resnais é um dos poucos sobreviventes de uma geração que mudou a cara do cinema a partir dos anos cinquenta, na época em que França comandava a renovação nas telas.

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  4 MESES, 3 SEMANAS,1 DIA ( 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile) (2007)
De Cristian Mungiu – Um filme sujo, com fotografia de banheiro de botequim. Triste, denso, romeno, desencantado. Um canto de fervor à mulher, com abortos e  humilhação numa Bucareste com serviços públicos abaixo da linha de pobreza, herança do negro regime de Ceausescu. Retalhos de angústias e de uma total falta de perspectiva, emociona sem choro e não tem intenções renovadoras, mas renova ao exacerbar humanidades num mundo que só pune os desvalidos.

 

longe do paraísoLONGE DO PARAÍSO (Far from heaven) (2002)
Um tributo aos melodramas americanos dos anos cinquenta, muito além de Fassbinder e de Almodóvar, também declarados admiradores daquela era. Todd  Haynes fez um clone do belo cinema de Douglas Sirk, que na época dirigiu o suprassumo dos temas familiares intimistas para a Universal (e achávamos que eram meros dramalhões).  A reconstituição é um prodígio. Trata-se de um filme produzido no novo milênio como se estivesse sendo rodado em 1958. O resultado é acachapante.  Figurinos, fotografia e direção de arte são de babar. As cores chapadas do visual da Universal ressurgem para iluminar o outuno e a luz silenciosa da delicada relação entre uma mulher casada e seu jardineiro negro. Um mundo de amargor, sexualidade feminina reprimida, homossexualismo idem e uma personagem com um coração tamanho de um bonde, vivida por Julianne Moore, com um onipresente lenço na cabeça. Haynes redimensionou, reviu e aumentou a visão dos preconceitos e da estreiteza social que resultaram no sofrimento de Jane Wyman e Rock Hudson, num Douglas Sirk puro sangue, de 1956: Tudo que o céu permite.

 

Um filme Falado UM FILME FALADO (2003)
Manoel de Oliveira é português, fez cento e um anos e ainda está filmando. Não resisto ao clichê: é o Niemeyer do celulóide.  Já tinha mais de noventa quando dirigiu este filme incômodo, misterioso, poético e escancaradamente contrário aos valores da era do dinheiro, do poder e do culto ao corpo. Com a belíssima Leonor Silveira como protagonista, ainda se deu ao luxo de encaixar na trama três rainhas do cinema europeu: Catherine Deneuve (França), Stefania Sandrelli (Itália) e Irene Papas(Grécia). O encontro delas – cada uma falando a língua de seu país e John Malkovich aparteando-as em inglês – é emblemático do estilo contramão de Oliveira. Pra provar que tem coração de adolescente incendiário, desemboca num final surpreendente e explosivo, com um corte seco e corajoso na ação. Tipo o que Buñuel fez em Esse obscuro objeto do desejo. Tarantino deve ter morrido de inveja.

 a-vida-dos-outros-1                                                                                                                                                          A VIDA DOS OUTROS (Das Leben der Anderen) (2006)
De Florian Henckel von Donnersmarck  – No tempo em que chamávamos os filme de fita, este seria um ´fitaço´! Tem suspense, política, literatura e conflitos existenciais tratados num ritmo de nos deixar sem fôlego. O final é de se levantar da cadeira e pedir bis. Purgação do período comunista na Alemanha Oriental, quando as escutas oficiais invadiam a vida dos dissidentes, mantém uma narrativa cristalina, com a ação e a emoção o tempo todo à flor da pele. Seu diretor, alemão de Colônia,  que tinha só 33 anos quando o fez,  tem nome de oficial prussiano e fisicamente até parece, do alto de seus dois metros de altura. Não é qualquer ´fita´ que nos faz sair do cinema com a alma lavada e enxaguada –  e agora sem trema.

 

confidenciasmuitointimas3CONFIDÊNCIAS MUITO ÍNTIMAS (Confidences trop intimes) (2004)
Patrice Leconte é, talvez, o mais instigante dos diretores franceses vivos. Tem declínios e picos mas Confidências é um dos seus topos, levando Sandrine Bonaire ao falso divã de Fabrice Luchini, num turbilhão de revelações e de situações tensas e inusitadas. A história manda pra córner os clichês psicologizantes e surpreende a toda hora. Leconte gangorra no falso e no verdadeiro, enquanto os dois protagonistas dão banho, especialmente Luchini. Ele ensina que ator de verdade trabalha com os olhares e quase nada com o corpo. Sean Penn e outros injustamente laureados deveriam aprender a lição.

 

21cidade_de_deus_09CIDADE DE DEUS (2002)
Fernando Meirelles e Kátia Lund levam o Brasil ao mundo com uma repercussão que nem Gláuber Rocha teve. Não foi por pouco, pois Cidade é uma proeza, um daqueles momentos de iluminação em que tudo dá certo, de um plano-sequência rotativo que fez inveja aos fotógrafos e diretores estrangeiros à galinha ciscando doida no prelúdio do tiroteio. Pela primeira vez o tráfico, os meninos da marginalidade e a vida nas favelas brasileiras são tratados sem sociologices ou maniqueísmos de algibeira. Não há clichês, é vapt-vupt.

 

encontros e desencontrosENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in translation) (2003)
Como é possível que a filha de Francis Ford Coppola – a `atrizinha` que ele meteu a fórceps no Poderoso Chefão 3 – tivesse cabeça para, depois de ter dirigido um filme over – e também bom – como As Virgens Suicidas, ter feito este? Cartas para o site. Bill Murray, talvez, seja uma das explicações. Outro grande ator que não ganhou prêmios. Filme pra dentro, repleto de sentimentos ambíguos e inconfessáveis, com a ação concentrada em dois quartos de hotel em Tóquio. Um prodígio de delicadeza, de tristezas contidas, uma espécie de tudo que podia ter sido e que não foi, a vida se perdendo nos diálogos subjetivos e nas más traduções.

 borat-mankini-2                                                                                                                                              BORAT (2006)
Mudou o humor ou mudei eu?. Quem sentar para assisti-lo e nada souber vai levar um murro – e morrer de rir. A idéia é de uma originalidade absurda e o protagonista é um diabo que não veste Prada. Ao contrário. Nunca se sabe onde termina a `fricção´ e começa o documentário, e vice-versa. Borat parte do Cazaquistão, onde as cenas iniciais parecem sair de um filme de um Kusturica ainda mais enlouquecido (são usados temas da trilha de Underground) e vai fazer cocô e colocar num saco plástico durante um jantar esnobe numa casa sulina americana. Há muito eu não ria de tantas políticas incorretas. Sacha Baron Coen, apresentador da tv britânica, co-escreveu o roteiro e faz o papel-título.  Ele é a cara e a coragem do filme, dirigido por Larry Charles.

 

captura-vermelho-como-o-ceuVERMELHO COMO O CÉU (Rosso come il cielo) (2006)
Sentimental demais, alguns diriam. Mas como não gostar de um filme que nos faz chorar feito gatinhos órfãos? Até que nem tão sentimental assim, pois imita a vida, a história é verdadeira. É sobre a volta por cima de Mirco Mencacci, um dos maiores editores de som do atual cinema italiano. Perdeu a visão, quando menino, num acidente com uma arma. O diretor Cristiano Bortone não teve medo de encarar um tema com um pé na pieguice e desarmou o chororô barato ao reunir um grupo de meninos cegos numa performance com base em sons e ruídos, para uma platéia adulta, de olhos vendados. A sequência rola como um filme à parte e quem não se entregar ao vale de lágrimas é ruim da cabeça ou doente do pé.

Até a próxima!

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